Políticas públicas, categorias estatísticas e seus perigos: um exemplo.

tylenolstatsDois artigos de pesquisa foram publicados na revista ProPublica que, juntamente com o número de setembro de 2013 da This American Life, advertiam sobre os possíveis danos de analgésicos cujo ingrediente ativo é a acetaminofena (também chamada de paracetamol). É o caso do conhecido Tylenol.

O que descobriram? Que 150 americanos morrem, anualmente, em função de problemas provocados por esses medicamentos que, nos Estados Unidos como aqui, não precisam de receita. “Matariam” mais do que qualquer outro remédio sem receita.

Porém....

 

Os medicamentos mais usados como alternativa aos baseados na acetaminofena são os chamados antiinflamatórios que não usam esteróides (naproxena, ibuprofena e aspirina, entre outros) - que causam 3.200 mortes e 32 mil internações hospitalares por ano somente devido a sangramentos gástricos.

Qual a causa da discrepância? A matéria feita pela excelente emissora de TV chamada PBS usa, sobretudo, fontes sobre o envenenamento que raramente investigam mortes e hospitalizações causadas por hemorragia gástrica porque elas podem ser causadas por outros fatores e estão mais vinculadas ao uso crônico do que a overdoses agudas. Assim, entram em outra estatística.

Em função desses dados, com pesados viéses, ProPublica encetou uma campanha para aumentar as advertências publicadas na bula do Tylenol e equivalentes. Com base no número de mortes e hospitalizações, uma política pública, inclusive uma campanha informativa, que redirecione dezenas de milhões de usuários de um medicamento, com um número de mortes diretas que se mede em centenas, para outros, com mortes indiretas na casa dos milhares, é temerária. A equação usada é claramente incompleta.

São medicamentos que podem ter objetivos diferentes. As aspirinas são usadas – helas! - como anticoagulantes e ajudam na prevenção de problemas cardiovasculares e, dados recentes sugerem, do câncer da próstata. Interessa a uma população diferente e seu uso não será episódico e sim contínuo. É outra a equação para aconselhar (ou não) o seu uso, o que se perde e o que se salva com o uso contínuo desse tipo de medicamentos.

Uma iniciativa contrária também tem problemas. Não podemos usar dados derivados de comparações entre medicamentos com usos diferentes, episódico e contínuo.

Problemas de classificação inadequada estão na base de políticas públicas de todo tipo e, se corregidas, podem melhorá-las.

Não é um firula de “quantitativistas”, “neopositivistas”, etc, nem é um tema abstrato que só interessa a estudiosos de metodologia, sem coisa melhor para fazer.  É um problema real de muitas políticas públicas que podem matar ou salvar vidas, de acordo com se são acertadas ou não.

 

GlaucioSoaresGláucio Ary Dillon Soares é professor do IESP-UERJ.


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